Nos dias que sucederam 5 de agosto de 2025, enquanto as primeiras notícias sobre o desaparecimento de quatro homens começavam a chegar à redação, o caso ainda parecia um quebra-cabeça incompleto. À época, ninguém poderia prever que aquele sumiço no interior do Paraná se tornaria um dos crimes mais brutais e complexos já registrados no Paraná.
Nesta quinta-feira (5), o caso completa seis meses sem que nenhum dos principais suspeitos esteja preso. A data marca o último dia em que Alencar Gonçalves de Souza Giron, de 36 anos, Diego Henrique Affonso, de 39 anos, Rafael Juliano Marascalchi, de 43 anos, e Robishley Hirnani de Oliveira, de 53 anos, foram vistos com vida, em Icaraíma, no Noroeste do Estado.
Desde então, o que começou com a cobrança de um suposto desacordo comercial revelou um cenário de execução múltipla, ocultação de cadáveres, armas de uso restrito, bunkers subterrâneos, indícios de atuação do crime organizado em área rural e nenhum suspeito preso até o momento, aumentando o desejo de justiça por parte das famílias das vítimas.
Disputa por terra levou à emboscada
As investigações da Polícia Civil indicam que o crime teve origem em um conflito financeiro envolvendo um sítio de cinco alqueires, avaliado em cerca de R$ 750 mil, localizado no distrito de Vila Rica do Ivaí, município de Icaraíma.
Diferentemente do que se afirmou inicialmente, Alencar não vendeu, mas comprou a propriedade de Antônio Buscariollo, de 66 anos, pagando R$ 255 mil à vista. O restante do valor seria financiado por empréstimo bancário, que acabou negado pela instituição financeira, levando ao distrato do negócio.
O acordo previa a devolução do valor pago em dez parcelas de R$ 25 mil, mediante emissão de notas promissórias em nome de Carlos Eduardo Cândido Buscariollo, outro filho de Antônio, que reside em São Paulo. Com o atraso nos pagamentos, Alencar decidiu cobrar a dívida.
Cobradores vindos de São Paulo
Para isso, contratou Diego Henrique Affonso, conhecido por atuar em cobranças, que levou consigo Rafael Marascalchi e Robishley de Oliveira, ambos de São José do Rio Preto (SP). Rafael, segundo a investigação, viajou contra a vontade da esposa e aguardava o nascimento da segunda neta.
O grupo chegou a Icaraíma em 4 de agosto e fez um primeiro contato com os Buscariollo. No dia seguinte, retornou à zona rural para uma nova tentativa de negociação com pai e filho, logo após serem filmados tomando café em uma panificadora da cidade. As imagens marcam o caso.
Execução em plena luz do dia
Laudos divulgados pela Polícia Civil em 10 de dezembro de 2025 apontam que as quatro vítimas foram executadas por volta das 12h30 do dia 5 de agosto, logo após chegarem à propriedade rural dos foragidos.
As análises descartam tortura ou cárcere privado. Os homens foram mortos dentro ou ao lado da caminhonete Fiat Toro, atingidos por disparos de pelo menos cinco armas de calibres diferentes, disparadas a partir de três posições distintas.
Os laudos identificaram munições .223, 5.56, .45, .40, calibre 12 e 9mm, incluindo armamento de uso restrito. Segundo a polícia, o padrão do ataque indica a participação de pelo menos cinco pessoas, embora apenas dois suspeitos tenham mandados de prisão expedidos pela Justiça até agora.
Carro ocultado em bunker
A caminhonete Fiat Toro branca, placas FTV 9H79, ano 2019, foi localizada apenas na tarde de 12 de setembro. Ela estava enterrada em uma vala profunda em área de mata, em um bunker, estrutura comumente usada por traficantes e contrabandistas.
A retirada do veículo ocorreu por volta de 0h30 do sábado (13), após mais de dez horas de trabalho com apoio de máquinas da prefeitura e de um guincho. O carro apresentava perfurações por tiros, vestígios de sangue e objetos pessoais das vítimas, como um boné pertencente a Diego.
Nenhum corpo foi encontrado no local.
Corpos enterrados e achados após 45 dias
Somente na noite de 18 de setembro, após quase 45 dias de buscas, os corpos foram localizados em uma área de mata da Fazenda Jundiá, a cerca de 500 metros de onde o veículo havia sido enterrado.
Segundo o delegado de Icaraíma, Thiago Andrade, que é responsável pela investigação, plantas haviam sido colocadas recentemente para camuflar o solo remexido. As escavações avançaram até a madrugada do dia 19, quando a Polícia Científica recolheu os corpos já em avançado estado de decomposição.
Território dominado por estruturas clandestinas
Durante as buscas ao veículo e aos corpos, a Polícia Civil identificou 22 estruturas subterrâneas na fazenda, sendo cinco bunkers de alvenaria e 17 esconderijos improvisados, feitos com lona, madeira e terra.
As estruturas foram catalogadas e georreferenciadas, com apoio da Força Nacional e da Polícia Militar Ambiental. A descoberta escancarou o uso da região para ocultação de armas, drogas e veículos, forçando um endurecimento da atuação policial no município.
Além da investigação criminal, a fazenda foi multada em R$ 7,5 milhões por danos ambientais em 278 hectares, incluindo áreas de preservação permanente. O local foi embargado.
Base da Polícia de Fronteira
Diante do cenário descortinado de crimes, a cidade será um dos pontos estratégicos do novo projeto Polícia de Fronteira, lançado pelo Governo do Estado para reforçar o combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas, ao contrabando e aos crimes transfronteiriços.
A cidade está entre as 11 que vão receber bases operacionais do proO Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron) é a unidade da Polícia Militar do Paraná especializada em atuar no combate aos crimes transnacionais.grama, criado para ampliar a presença das forças de segurança em regiões consideradas sensíveis por estarem próximas a divisas interestaduais e rotas usadas por organizações criminosas.
Subordinado ao Comando de Missões Especiais da Polícia Militar do Paraná, o BPFron é o primeiro Batalhão de Polícia Militar de Fronteira do país especializada em atuar no combate aos crimes transnacionais. Não foi divulgado pelo Governo do Estado o cronograma da implantação da base em Icaraíma.
Suspeitos foragidos e investigação sob sigilo
Os principais suspeitos, Antônio Buscariollo e Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 22 anos, seguem foragidos desde 8 de agosto, quando a Justiça decretou a prisão preventiva.
Segundo o novo chefe da 7ª Subdivisão Policial de Umuarama, o delegado Izaias Cordeiro de Lima, não haverá mudanças na condução do inquérito, que segue sob responsabilidade do delegado Thiago Andrade, de Icaraíma.
“A investigação está sob sigilo. Mas seguimos buscando elementos probatórios que contenham provas”, afirmou Izaias.
A Polícia Civil também apura a conduta de dois agentes públicos, alvos de busca e apreensão, suspeitos de manter contato com investigados após o crime. Não há indícios, até o momento, de participação direta nas execuções.
Dor, dignidade e espera por justiça
Familiares de Alencar Gonçalves de Souza afirmam que sempre confiaram no trabalho da Polícia Civil e que a localização do corpo trouxe dignidade à família, embora nenhuma resposta seja capaz de reparar a perda. Segundo eles, o foco agora é seguir em frente e cuidar do pai de Alencar, enquanto aguardam por Justiça.
A advogada Josiane Monteiro, que representa familiares das demais vítimas, informou que deve divulgar uma nota sobre os seis meses do crime, que será incorporada à reportagem assim que publicada. As famílias têm reiterado o pedido por Justiça e apontam a demora no avanço das investigações e no cumprimento das prisões.
Seis meses depois, Icaraíma ainda carrega em silêncio as marcas de um crime sem respostas definitivas, em um território onde a violência e as armas continuam sendo investigados enquanto os acusados seguem livres.