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Ficar em casa no dia da eleição também é uma decisão. E costuma ser a pior delas.

Foto: Ilustração CGN

Daqui a dez dias, no domingo, 4 de outubro, o brasileiro volta às urnas. E antes de reclamar do país, do preço do mercado, da insegurança ou do posto de saúde que não funciona, vale uma pergunta simples: você vai votar?

Falamos muito em democracia no Brasil. Enchemos a boca para defendê-la. Mas é preciso ter coragem de perguntar se ela funciona de verdade do jeito que o nosso sistema eleitoral está montado. Não vamos dar a resposta pronta. Vamos apresentar alguns fatos, e o internauta tira suas próprias conclusões.

Hoje, para disputar um cargo público no Brasil, basta estar em dia com a Justiça Eleitoral, ser filiado a um partido, ter a idade mínima e saber ler e escrever. Só isso. Não se exige formação, experiência em gestão, conhecimento das leis ou da Constituição que o eleito vai jurar cumprir.

Pense no absurdo: para ser caixa de banco, a pessoa passa por seleção, prova e treinamento. Para administrar uma prefeitura, um estado ou o país inteiro, basta ser conhecido e ter voto.

É aí que o sistema começa a trair a própria democracia. Uma pessoa sem nenhuma capacidade de administrar, mas popular, se elege com facilidade. E pior: pode levar junto gente que jamais teria votos por conta própria.

Isso acontece por causa do chamado quociente eleitoral, usado nas eleições para deputado e vereador. Quando um candidato recebe muito mais votos do que precisa para se eleger, a sobra vai para o partido e ajuda a eleger outros nomes da mesma legenda ou federação.

Na prática, o eleitor vota em um e elege outro que nem conhece. Não é à toa que o Brasil já viu um palhaço de profissão virar o deputado mais votado do país e puxar outros tantos para dentro do Congresso. A popularidade abriu a porta, e quem entrou junto ninguém escolheu.

Vamos falar de um país que ninguém confunde com modelo de democracia: a China. Lá não há eleições livres para os cargos de cúpula, existe um partido único e a oposição não tem vez. Não é isso que queremos para o Brasil. Mas há um ponto no modelo chinês que merece atenção.

Para chegar ao topo do poder, o político chinês passa por décadas de testes. Começa em cargos locais, administra cidades, depois províncias com dezenas de milhões de habitantes, e só avança se entregar resultados que possam ser medidos. Quem chega ao comando nacional já provou, na prática, que sabe governar.

No Brasil, o caminho é outro. O sistema premia o carisma e a popularidade. Qualquer cidadão elegível pode chegar ao Executivo ou ao Legislativo com votos suficientes, sem nunca ter administrado nada.

Há ainda a conta. Na China, não existem campanhas milionárias no rádio, na TV e na internet. Aqui, o Fundo Eleitoral de 2026 soma R$ 4,96 bilhões de dinheiro público, sem contar o Fundo Partidário e toda a estrutura da Justiça Eleitoral para fiscalizar o processo. É o seu imposto pagando santinho, jingle e marqueteiro.

E aqui cabe uma provocação. O atual governo não esconde a simpatia pela China. Estreitou laços, elogia o modelo de desenvolvimento chinês e já defendeu mais de uma vez propostas de regulação da mídia e das plataformas digitais, tema que por lá se resolve com censura. Se a inspiração chinesa serve para discutir o controle do que se publica, por que não serve para o que o modelo tem de melhor? Por que ninguém em Brasília propõe que, para chegar ao topo, o político precise antes passar pelas camadas de baixo e provar que sabe administrar?

A resposta talvez seja simples: essa regra atrapalharia muita gente que hoje chega ao poder sem nunca ter mostrado resultado.

A lição não é copiar a China. É entender que quem quer comandar o país deveria provar antes que sabe fazer.

No Brasil, muitas vezes basta prometer. Dizer que vai fazer, não fazer e pedir o voto de novo na eleição seguinte. E o pior é que funciona.

Nesta eleição, parte do eleitorado parece preferir quem promete o paraíso sem dizer quem vai pagar. Enquanto isso, candidatos que falam abertamente sobre o que precisa ser feito, mesmo quando o remédio é amargo, encontram dificuldade para ser ouvidos.

Sentimos informar, eleitor: não existe solução sem conta. Alguém sempre paga. E se a forma de governar que temos hoje continuar, quem vai pagar é você, com a vida ficando cada vez mais cara e mais difícil.

E aqui chegamos ao ponto mais grave. No segundo turno da eleição presidencial de 2022, 32.200.558 eleitores não foram às urnas. Um em cada cinco brasileiros aptos a votar simplesmente ficou em casa.

Muitos deles hoje reclamam da situação do país. Mas abriram mão de decidir. E, ao ficar de fora, deixaram que outros escolhessem por eles, e por todos nós.

Quem se abstém não fica neutro. Apenas entrega o próprio futuro nas mãos de quem foi votar.

Vamos acompanhar de perto o número de abstenções em 2026. Se ele se mantiver no patamar de 2022, o país terá de encarar uma pergunta incômoda: se um quinto dos eleitores já escolhe não votar, o voto obrigatório ainda faz sentido?

Até lá, a escolha está com você. Estude os candidatos, desconfie de promessa fácil e vá votar. Ficar em casa também é uma decisão. E costuma ser a pior delas.

Fonte: CGN